domingo, 12 de julho de 2026

A Arquiteta do Vazio

 Aos quarenta e oito, o pó do tempo
Acomodou-se em André, mas não pesado.
A busca febril do jovem pensamento
Cessara, em um sutil, sereno estado.

Nos olhos dele, a paz, doce aguardo,
De quem fez pacto com a longa espera.
Sua vida, um livro, um mapa, um resguardo
Do que a alma busca na sutil quimera.

Tornou-se ele o mestre e cartógrafo,
Guiando almas no mar da busca, em bando.
A “almagemização” seu autógrafo,
De crer, de ter, o coração sonhando.

No Rio, a tarde, o asfalto em calor forte,
Um pequeno auditório, o ar que sopra,
Lutava com o mormaço, má sorte,
Enquanto a palestra em silêncio opera.

André subiu, sentindo o palco amigo,
Um leve tremular na voz contida,
Pois falar da alma, o eterno perigo,
Requer respeito pela própria vida.

Olhou os rostos, todos atentos, ali,
Buscadores de luz, como ele próprio.
Narrou o sonho, de luzes, de colibri,
No bosque mágico, onde o tempo é ímpar.

Lá falou com o rosto, que a memória nega,
Mas a essência ficou, pura e tão fina.
E a promessa, que como o mar na adega,
Se tornou seu norte, a sua rotina.

“André,” disse ela, “iremos nos achar,
Nos conhecer, casar e sermos um só.”
Essa promessa, o sol a brilhar,
Sustentou seus dias, tirou-lhe o dó.

Na quinta fila, emudecida, inerte,
Uma mulher, Helena, aos quarenta e cinco,
Sente um tremor, a alma em alerta,
As palavras de André batem, em um brinco.

Ela é arquiteta, sucesso que brilha,
Mas dentro, a planta, um hiato, uma sombra.
Nenhum projeto, nenhuma partilha,
Consegue apagar a dor que assombra.

Ecoavam as palavras, melodias vagas,
De Brian Weiss, que o orador citava.
As dores das perdas, as nossas chagas,
A sensação do que lhe faltava.

Quando ele narrou o ônibus lotado,
Helena parou, suspensa a respiração.
A mão na dele, o choque, o sagrado,
O reconhecimento, a puro emoção.

Helena fechou os olhos, imagem fugaz,
Um bosque, uma luz, um sussurro tão terno.
A alma de André, em paz, lá estava,
Lembrando a promessa, o seu plano interno.

Um fio de luz, sutil, de ouro pálido,
Viaja pelo ar, unindo os peitos,
Como um rio dourado, no escuro, límpido,
Deixando em Helena os seus efeitos.

Brilha a blusa dela, onde a luz a toca,
Calor que aquece, uma conexão,
Enquanto o auditório em silêncio se invoca,
O reencontro milenar, a comoção.

Um silêncio sagrado, onde o mundo se cala,
Resta apenas o eco, o amor que se eleva.
Este encontro sutil, que a alma embala,
Em que o tempo se curva, em que o amor se releva.

 

 

 


 

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