1 Reportando-nos à dolorosa e comovedora cena do sacrifício dos mártires cristãos, na arena do circo, † somos compelidos a acompanhar a entidade de Lívia na sua augusta trajetória para o Reino de Jesus.
Nunca
os horizontes da Terra foram gratificados com paisagens de tanta
beleza, como as que se abriram nas esferas mais próximas do planeta,
quando da partida em massa dos primeiros apóstolos do Cristianismo,
exterminados pela impiedade humana, nos tempos áureos e gloriosos da
consoladora doutrina do Nazareno.
Naquele dia, quando as feras famintas estraçalhavam os indefesos
adeptos das ideias novas, toda uma legião de espíritos sábios e
benevolentes, sob a égide do Divino Mestre, lhe rodeava os corações
dilacerados no martírio, saturando-os de força, resignação e coragem
para o supremo testemunho de sua fé.
Sobre as nefastas paixões desencadeadas, naquela assistência
ignorante e impiedosa, desdobravam os poderes do céu o manto infinito
de sua misericórdia, e além daquele vozerio sinistro e ensurdecedor
havia vozes que abençoavam proporcionando aos mártires do Senhor uma
fonte de suaves e ditosas consolações.
2 Entardecia já, quando tombavam as últimas vítimas ao choque brutal dos leões furiosos e implacáveis.
Abrindo os olhos entre os braços carinhosos do seu velho e generoso
amigo, Lívia compreendera, imediatamente, a consumação do angustioso
transe. Simeão tinha nos lábios um sorriso divino e lhe acariciava os
cabelos, paternalmente, com meiguice e doçura. Estranha emoção vibrava,
porém, na alma liberta da esposa do senador, que se viu presa de
lágrimas dolorosas. A seu lado notou, com penosa surpresa, os despojos
sangrentos do corpo dilacerado e entendeu, embora o seu amarguroso
espanto, o doce mistério da ressurreição espiritual, ( † )
de que falava Jesus nas suas lições divinas. Desejou falar, de modo a
traduzir seus pensamentos mais íntimos e, todavia, tinha o coração
repleto de emoções indefiníveis e angustiosas. Aos poucos, notou que,
da arena ensanguentada erguiam-se entidades, qual a sua própria,
ensaiando passos vacilantes, amparadas, porém, por criaturas graciosas,
etéreas, aureoladas de graça incomparável, como jamais contemplara em
qualquer circunstância da vida. Aos seus olhos desapareceu o cenário
colorido e tumultuoso do circo da ignomínia e aos seus ouvidos não mais
ressoaram as gargalhadas irônicas e perversas dos espectadores cruéis e
impiedosos. Notou que, do firmamento constelado, fluía uma luz
misericordiosa e compassiva, afigurando-se-lhe que uma nova claridade,
desconhecida na Terra, se acendera maravilhosamente dentro da noite.
Imensa multidão de seres, que lhe pareciam alados, cercava-os a todos,
enchendo o ambiente de vibrações divinas.
3 Deslumbrada, viu, então, que entre a Terra e o Céu, se formava um radioso caminho…
Através de uma esteira de luz intraduzível, que não chegava a ofuscar
o brilho caricioso e terno das estrelas que bordavam, cintilando, o
azul macio do firmamento, observou novas legiões espirituais que
desciam, celeremente, das maravilhosas regiões do Infinito…
Empolgados com as sonoridades delicadas daquele ambiente
indescritível, seus ouvidos escutaram, então, melodias cariciosas do
Plano Invisível, como se de ou volta com liras e flautas, harpas e
alaúdes, cantassem no Alto as divinas toutinegras do paraíso,
projetando as alegrias siderais nas paisagens escuras e tristes da
Terra…
Seu espírito, como que impulsionado por energia misteriosa,
conseguiu, então, manifestar as emoções mais íntimas e mais queridas.
Abraçando-se ao velho e generoso amigo da Samaria, pôde murmurar
banhada em lágrimas:
— Simeão, meu benfeitor e mestre, roga comigo a Jesus para que esta hora me seja menos dolorosa.
— Sim, filha — respondeu o venerável apóstolo aconchegando-a ao
coração, como se o fizesse a uma criança — o Senhor, na sua infinita
misericórdia reserva o seu carinho a quantos lhe recorrem à
magnanimidade, com a fé ardente e sincera do coração!… Acalma o teu
espírito porque estás, agora, a caminho do Reino do Senhor, destinado
aos corações que muito amaram!…
4 Naquele instante,
porém, uma força incompreensível parecia impelir para as Alturas
quantos ali se conservavam sem a pesada indumentária da Terra…
Lívia sentiu que o terreno lhe faltava e que todo o seu ser volitava
em pleno espaço, experimentando estranhas sensações, embora fortemente
amparada pelos braços generosos do venerando amigo.
Era, de fato, uma radiosa caravana de entidades puríssimas, que se
elevava em conjunto, através daquele cintilante caminho, traçado de luz
em pleno Éter!… Experimentando singulares sensações de leve, a esposa
do senador sentiu-se mergulhada num oceano de vibrações cariciosas e
suavíssimas.
Todos os companheiros lhe sorriam e contemplando-os, igualmente
amparados pelos mensageiros divinos, ela identificava um a um, quantos
lhe haviam sido irmãos no cárcere, no martírio e na morte infamante. Em
dado instante, todavia, como se a memória fosse chamada a todos os
pormenores da realidade ambiente, lembrou-se de Ana, sentindo-lhe a
falta, naquela jornada de glorificação em Jesus Cristo.
Bastou que a recordação lhe aflorasse no íntimo, para que a voz de Simeão esclarecesse com a proverbial bondade:
— Filha, mais tarde poderás saber tudo… Na tua saudade, porém,
inclina-te sempre aos desígnios divinos, inspirados em toda a sabedoria
e misericórdia… Não te impressiones com a ausência de Ana neste
banquete de alegrias celestiais, porque aprouve a Jesus conservá-la
ainda algum tempo na oficina de suas bênçãos, entre as sombras do
degredo terrestre…
Lívia ouviu e resignou-se, silenciosa.
5 Reconheceu que seguiam
sempre pela mesma estrada maravilhosa, que, a seus olhos, parecia
ligar o Céu e a Terra num carinhoso amplexo de luz, figurando-se-Ihe que
todos os divinos componentes da luminosa caravana flutuavam num
movimento de ascensão, em pleno espaço, demandando regiões gloriosas e
desconhecidas. No seio dos elementos aéreos, admirava-se de conservar
todo o mecanismo de suas sensações físicas, através do eterizado e
radioso caminho.
Ao longe, nos abismos do ilimitado, parecia divisar novos firmamentos
estrelados, que se multiplicavam maravilhosamente no seio do Infinito,
e, observava radiações fulgurantes que, por vezes, lhe ofuscavam os
olhos deslumbrados…
De outras vezes, olhando furtivamente para trás, via um acervo de
sombras compactas e movediças, onde se localizavam as esferas de vida
na Terra distante. Em todas as margens do caminho verificou a
existência de flores graciosas e perfumadas, como se os lírios
terrestres, com expressões mais delicadas, se houvessem transportado
aos jardins do paraíso…
A eternidade apresentava-se-lhe com encantos e venturas indizíveis!…
6 Simeão falava
carinhosamente da sua adaptação à vida nova e das belezas sublimadas do
reino de Jesus, recordando com alegria as penosas angústias da vida na
Terra, quando aos seus ouvidos ecoaram vozes argentinas e harmônicas
dos rouxinóis siderais que festejavam, nas Alturas, a redenção dos
mártires do Cristianismo, † como
se estivessem chegando às cercanias de uma nova Galileia, saturada de
melodias e perfumes deliciosos, erguida à luz plena do Infinito, qual
ninho de almas santificadas e puras, balouçando aos ventos perfumados
de uma primavera interminável, na árvore da criação, maravilhosa e sem
fim…
Aquele hino suave e claro, ora se elevava às alturas em
sonoridades prodigiosas, como se fora um incenso sutil das almas
procurando o sólio do Sempiterno em hosanas de amor, de alegria e de
reconhecimento, ora descia em melodias arrebatadoras, demandando as
sombras da Terra, como se fosse um brado de fé e esperança em Jesus
Cristo, destinado a acordar no mundo os corações mais perversos e mais
empedernidos...
7 A linguagem humana não traduz fielmente as harmoniosas vibrações das melodias do invisível, mas aquele cântico de glória, ao menos palidamente, deve ser lembrado por nós outros como suave reminiscência do paraíso:
— Glória a Ti, Senhor do Universo, Criador de todas as maravilhas!...
É por tua sabedoria inacessível que se acendem as constelações nos
abismos do Infinito e é por tua bondade que se desenvolve a erva tenra
na crosta escura da Terra!…
Por Ti, Senhor, fez-se o verbo do princípio ilimitado e sem fim!…
Por tua grandeza inapreciável e por tua justiça misericordiosa, abre o tempo os seus ilimitados tesouros para as almas!…
Por teu amor, sacrossanto e sublime, florescem todos os risos e todas as lágrimas no coração das criaturas!…
Abençoa, Senhor do inverso, as sagradas esperanças deste Reino! Jesus
é para nós o teu Verbo de amor, de paz, de caridade e de beleza!…
Fortalece as nossas aspirações de cooperar em sua Seara Santa!…
Multiplica as nossas energias e faze chover sobre nós o fogo sagrado
da fé para espalharmos, na Terra, as divinas sementes do amor de teu
Filho!…
Basta uma gota do orvalho divino de tua misericórdia para que se
purifiquem todos os corações, mergulhados no lodo dos crimes e das
impenitências terrestres, e basta um raio só do teu poder para que
todos os espíritos se convertam ao bem supremo!…
E agora, ó Jesus, Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, recebe as nossas súplicas ardentes e fervorosas!
Abençoa, ó Divino Mestre, os que chegam redimidos da terra da
amargura, santifica-lhes as esperanças com o anélito criador de tuas
bênçãos sacratíssimas!…
Vítimas da perversidade humana, cumpriram, valorosamente, os teus
missionários, todas as obrigações que os prendiam ao cárcere do penoso
degredo!…
O mundo, no torvelinho de suas inquietações e iniquidades, não lhes
compreendeu o coração amantíssimo, mas, na tua bondade e misericórdia,
abres aos mártires da verdade as portas sacrossantas do teu reino de
luz!…
8 Estrofes de
profunda beleza espalhavam nas estradas claras e sublimadas do éter
universal as bênçãos da paz e das alegrias harmoniosas!
Os seres inferiores, das esferas espirituais mais próximas do
planeta, recebiam aqueles eflúvios sacrossantos do celeste banquete
reservado por Jesus aos mártires da sua doutrina de redenção, como se
fossem também convidados pela misericórdia do Divino Mestre e muitos
deles, recebendo no íntimo aquelas vibrações maravilhosas, se
converteram para sempre ao amor e ao bem supremos.
Harmonias suavíssimas saturavam todas as atmosferas espirituais, derramando sobre a Terra claridades augustas e soberanas.
Naquela região de belezas ignotas e prodigiosas, intraduzíveis na
pobreza da linguagem humana, Lívia retemperou as forças morais, depois
do austero cumprimento de sua missão divina.
Ali, compreendeu a extensão do conceito de “muitas moradas”, ( † )
dos ensinamentos de Jesus, contemplando junto de Simeão as mais
diversas esferas de trabalho localizadas nas cercanias da Terra, ou
estudando a grandeza dos mundos disseminados pela sabedoria divina no
oceano imensurável do Éter, da imortalidade. Obedecendo às tendências
do seu coração, não se esqueceu das antigas amizades da vida romana,
buscando inteirar-se de sua situação nos Círculos espirituais,
colocados nas zonas terrestres.
9 Depois de alguns dias
de emoções suaves e carinhosas, todos os espíritos, reunidos naquela
paisagem luminosa, se preparam para receber a visita do Senhor, como
quando da sua divina presença na bucólica moldura da Galileia.
Num dia de beleza maravilhosa e indefinível, em que uma claridade de
cambiantes divinos entornava saboroso mel de alegria em todos os
corações, descia o Cordeiro de Deus da esfera superior de suas glórias
sublimes e, tomando a palavra naquele cenáculo de maravilhas, recordava
as suas inesquecíveis pregações junto às águas tranquilas do pequeno
“mar” da Galileia. †
De modo algum se poderia traduzir fielmente, na Terra, a beleza nova
da sua palavra eterna, substância de todo o amor, de toda a verdade e
de toda a vida, mas constitui para nós um dever, neste esforço, lembrar a
sua ilimitada sabedoria, ousando reproduzir, imperfeitamente e de
leve, a essência sagrada de suas lições divinas naquele momento
inesquecível.
Figurava-se, a todos os presentes, a cópia fiel dos quadros
graciosos e claros do Tiberíades. A palavra do Mestre derramava-se no
ádito das almas, com sonoridades profundas e misteriosas, enquanto de
seus olhos vinha a mesma vibração de misericórdia e de serena
majestade.
10 — “Vinde a mim,
vós todos que semeastes com lágrimas e sangue, na vinha celeste do meu
reino de amor e verdade!… Nas moradas infinitas do Pai, há luz bastante
para dissipar todas as trevas, consolar todas as dores, redimir todas
as iniquidades...
11 Glorificai-vos,
pois, na sabedoria e no amor de Deus Todo Poderoso, vós que já
sacudistes o pó das sandálias miseráveis da carne, nos sacrifícios
purificadores da Terra! Uma paz soberana vos aguarda, para sempre, no
reino dilatado e sem fim, prometido pelas divinas aleluias da Boa-Nova,
porque não alimentastes outra aspiração no mundo, senão a de procurar o
reino de Deus e de sua justiça.
12 “Entre a Manjedoura
e o Calvário, tracei para as minhas ovelhas o eterno e luminoso
caminho… O Evangelho floresce, agora, como a seara imortal e inesgotável
das bênçãos divinas. Não descansemos, contudo, meus amados, porque
tempo virá na Terra, em que todas as suas lições hão de ser
espezinhadas e esquecidas... Depois de longa era de sacrifícios para
consolidar-se nas almas, a doutrina da redenção será chamada a
esclarecer o governo transitório dos povos; mas, o orgulho e a ambição,
o despotismo e a crueldade hão de reviver os abusos nefandos de sua
liberdade! O culto antigo, com as suas ruínas pomposas, buscará
restaurar os templos abomináveis do bezerro de ouro. Os preconceitos
religiosos, as castas clericais, os falsos sacerdotes, restabelecerão
novamente o mercado das cousas sagradas, ofendendo o amor e a sabedoria
de Nosso Pai, que acalma a onda minúscula no deserto do mar, como
enxuga a mais recôndita lágrima da criatura, vertida no silêncio de
suas orações ou na dolorosa serenidade de sua amargura indizível!…
13 “Soterrando o
Evangelho na abominação dos lugares santos, os abusos religiosos não
poderão, todavia, sepultar o clarão de minhas verdades, roubando-as ao
coração dos homens de boa vontade!…
“Quando se verificar este eclipse da evolução de meus ensinamentos,
nem por isso deixarei de amar intensamente o rebanho das minhas ovelhas
tresmalhadas do aprisco!…
“Das Esferas de luz que dominam todos os círculos das atividades
terrestres, caminharei com os meus rebeldes tutelados, como outrora,
entre os corações impiedosos e empedernidos de Israel, que escolhi, um
dia, para mensageiro das verdades divinas entre as tribos desgarradas
da imensa família humana!…
14 “Em nome de Deus
Todo Poderoso, meu Pai e vosso Pai, regozijo-me aqui convosco, pelos
galardões espirituais que conquistastes no meu reino de paz, com os
vossos sacrifícios abençoados e com as vossas renúncias purificadoras!
Numerosos missionários de minha doutrina ainda tombarão, exânimes, na
arena da impiedade, mas hão de constituir convosco a caravana
apostólica, que nunca mais se dissolverá, amparando todos os
trabalhadores que perseverarem até o fim, no longo caminho da salvação
das almas!…
15 “Quando a escuridão
se fizer mais profunda nos corações da Terra, determinando a
utilização de todos os progressos humanos para o extermínio, para a
miséria e para a morte, derramarei a minha luz sobre toda a carne e
todos os que vibrarem com o meu reino e confiarem nas minhas promessas,
ouvirão as nossas vozes e apelos santificadores!…
“Dentro das suaves revelações do Consolador, pela sabedoria e pela
verdade, meu verbo se manifestará novamente no mundo, para as criaturas
desnorteadas no caminho escabroso, através de vossas lições, que se
perpetuarão nas páginas imensas dos séculos do porvir!…
16 “Sim! amados meus,
porque o dia chegará, no qual todas as mentiras humanas hão de ser
confundidas pela claridade das revelações do Céu. Um sopro poderoso de
verdade e vida varrerá toda a Terra, que pagará, então, à evolução dos
seus institutos os mais pesados tributos de sofrimento e de sangue…
Exausto de receber os fluidos venenosos da ignomínia e da iniquidade de
seus habitantes, o próprio planeta protestará contra, a impenitência
dos homens, rasgando as entranhas em dolorosos cataclismos… As
impiedades terrestres formarão pesadas nuvens de dor que rebentarão, no
instante oportuno, em tempestades de lágrimas na face. escura da Terra
e, então, das claridades de minha misericórdia, contemplarei meu
rebanho desditoso e direi como os meus emissários: “Ó Jerusalém,
Jerusalém!…” ( † )
17 “Mas, Nosso Pai que
é a sagrada expressão de todo o amor e sabedoria, não quer se perca
uma só de suas criaturas, transviadas nas tenebrosas sendas da
impiedade!…
Trabalharemos com amor na oficina dos séculos porvindouros,
reorganizaremos todos os elementos destruídos, examinaremos detidamente
todas as ruínas, buscando o material passível de novo aproveitamento
e, quando as instituições terrestres reajustarem a sua vida na
fraternidade e no bem, na paz e na justiça, depois da seleção natural
dos Espíritos a dentro das convulsões renovadoras da vida planetária,
organizaremos para o mundo um novo ciclo evolutivo, consolidando com as
divinas verdades do Consolador os progressos definitivos do homem
espiritual.”
18 A voz do Mestre
parecia encher os âmbitos do próprio Infinito, como se Ele a lançasse
qual baliza divina do seu amor, no ilimitado do espaço e do tempo, no
seio radioso da Eternidade. Terminando a exposição de suas profecias
augustas, sua figura sublimada elevava-se às Alturas, enquanto um
oceano de luz azulada, de mistura aos sons de melodias divinas e
incomparáveis, invadia aqueles domínios espirituais, com as tonalidades
cariciosas das safiras terrestres.
Todos os presentes, genuflexos na sua doce emoção, choravam de
reconhecimento e alegria, enchendo-se de santificada coragem para as
elevadas tarefas que lhes competia levar a efeito, no curso incessante
dos séculos terrestres. Flores de maravilhoso azul-celeste choviam do
Alto sobre todas as frontes, desfazendo-se, todavia, ao tocarem nas
delicadas substâncias que formavam o solo daquela paisagem de soberana
harmonia, como se fossem lírios fluidos de perfumada neblina.
19 Lívia chorava de
comoção indefinível, enquanto Simeão, com seus generosos ensinamentos, a
instruía das novas missões de trabalho santificante, que lhe
aguardavam a dedicação no plano espiritual.
— Meu amigo, — disse ela entre lágrimas — as agonias terrestres são
um preço misérrimo para estas recompensas radiosas e imortais!… Se
todos os homens tivessem conhecimento direto de semelhantes venturas,
não possuiriam outra preocupação além da de buscar o glorioso reino de
Deus e de sua justiça.
— Sim, filha — murmurou Simeão, como se os seus olhos pousassem
serenamente nos quadros do futuro — um dia, todos os seres da Terra hão
de conhecer o Evangelho do Mestre, observando-lhe os ensinos!… Para
isso, haveremos de sacrificar-nos pelo Cordeiro de Deus, quantas vezes
forem necessárias. Organizaremos avançados postos de trabalho entre as
sombras terrestres, buscaremos acordar todos os corações adormecidos
nas reencarnações dolorosas, para as harmonias sublimes destas divinas
alvoradas!…
Se for preciso, voltaremos de novo ao mundo, em missões
santificadoras de paz e verdade… Sucumbiremos na cruz infamante, ou
daremos o sangue em repasto às feras da ambição e do orgulho, do ódio e
da impiedade, que dormitam nas almas dos nossos companheiros da
existência terrestre, convertendo todos os corações ao amor de Jesus
Cristo!…
20 Nesse instante,
todavia, Lívia notou que um grupo gracioso de entidades angélicas
distribuía as graças do Senhor naquela paisagem florida do Infinito,
organizada no Além como estância de repouso, recompensando com as suas
excelsitudes os que haviam partido das angústias terrenas, após o
cumprimento de uma missão divina.
Todos os que haviam alcançado a vitória celeste com os seus esforços,
nos martírios santificantes, retemperavam agora as forças morais e
desejavam conhecer novas esferas de gozo espiritual, novas expressões
da vida noutros mundos, renovando conhecimentos nos templos radiosos e
sublimes da Eternidade e restabelecendo, ao mesmo tempo, o equilíbrio
de suas emoções mais queridas.
Junto à magnanimidade dos mensageiros de Jesus, sublimados planos
foram arquitetados. Novos cenários, novas oficinas de estudo, novas
emoções no reencontro de afetos inesquecíveis, que haviam antecedido os
missionários do Senhor na noite escura e fria da morte.
21 Mas, chegando-lhe a
vez de externar os seus mais recônditos desejos, a nobre companheira
do senador, depois de auscultar os seus sentimentos mais profundos,
respondeu entre lágrimas, ao emissário de Jesus que a interpelava:
— Mensageiro do Bem — as maravilhas do reino do Senhor teriam para
mim uma nova beleza, se eu pudesse penetrar-lhes as excelsitudes, em
companhia do coração que é metade do meu, da alma gêmea da minha, que a
sabedoria de Deus, em seus profundos e doces mistérios, destinou ao
meu modo de ser, desde a aurora dos tempos!…
“Não deseja menosprezar a glória sublime destas regiões de felicidade
e de paz indizíveis, mas, no meio de todas estas alegrias que me
rodeiam, sinto saudades da alma que é o complemento da minha própria
vida!…
Dai-me a graça de voltar às sombras da Terra e erguer o companheiro
do meu destino do lodaçal do orgulho e das vaidades impiedosas!…
Permiti que possa protegê-lo em espírito, a fim de um dia trazê-lo aos
pés de Jesus, igualmente, de modo que também receba as suas divinas
bênçãos!…
22 A entidade angélica
sorriu com profunda compreensão e terna complacência, exclamando: —
Sim — o amor é o laço de luz eterna que une todos os mundos e todos os
seres da imensidade; sem ele, a própria Criação Infinita não teria
razão de ser, porque Deus é a sua expressão suprema… As perspectivas
deslumbrantes das Esferas felizes perderiam a divina beleza, se não
guardássemos a esperança de participar, um dia, de suas ilimitadas
venturas, junto dos nossos bem amados, que se encontram na Terra ou
noutros círculos de provação, do Universo…
E, fixando o lúcido olhar nos olhos serenos e deslumbrados de Lívia,
continuou como se lhe devassasse os pensamentos mais secretos e mais
profundos:
— “Conheço toda a tua história e sei de tuas lutas incessantes e
redentoras, nas encarnações do passado, justificando assim os teus
propósitos de prosseguir, em espírito, trabalhando na Terra pelo
aperfeiçoamento daqueles a quem muito amaste!…
“Também o Cordeiro de Deus, por muito amar a Humanidade, não desdenhou a humilhação, o martírio, o sacrifício…
23 “Vai, minha filha.
Poderás trabalhar livremente entre as falanges radiosas que operam na
face sombria do planeta terrestre. Voltarás aqui, sempre que
necessitares de novos esclarecimentos e novas energias. Regressarás
junto de Simeão, logo que o desejares. Ampara o teu infeliz companheiro
na longa esteira de suas expiações rudes e amargas, mesmo porque o
desventurado Públio Lentulus não está longe da sua mais angustiosa
provação na atual existência, perdida, infelizmente, pelo seu
desmarcado orgulho e pela sua vaidade fria e impiedosa!...”
Lívia sentiu-se tomada de indizível emoção, em face daquela revelação
dolorosa, mas, simultaneamente, externou todo o seu reconhecimento à
misericórdia divina, na intimidade do seu coração sensível e carinhoso.
Naquele mesmo dia, em companhia de Simeão, a generosa criatura voltava
à Terra, afastando-se provisoriamente daqueles domínios esplendorosos.
24 Através da sua
excursão espiritual, sublime e vertiginosa, observou as mesmas
perspectivas encantadoras e deslumbrantes do caminho, recebendo elevados
ensinamentos do venerando amigo da Samaria, na sua admiração sublimada
e comovedora.
Em pouco tempo, aproximavam-se ambos de uma larga mancha escura.
Já na atmosfera da Terra, Lívia experimentou a singular diversidade da
natureza ambiente, experimentando os mais penosos choques fluídicos.
Num ápice, notou que se encontravam na mesma Roma da sua infância, da sua juventude e das suas amargas provações.
Era meia noite. Todo o hemisfério estava mergulhado nos abismos de sombra.
Amparada pelos braços e pela experiência de Simeão, chegou ao seu antigo palácio do Aventino, † identificando-lhe os mármores preciosos.
Em lá penetrando, Lívia e Simeão se dirigiram imediatamente ao quarto do senador, então iluminado por frouxa claridade.
Com exceção das ruas, onde se movimentavam ruidosamente os escravos,
nos serviços noturnos de transporte, segundo os costumes do tempo, toda
a cidade repousava na sombra.
25 De joelhos ante a
relíquia de Simeão, como de seu recente costume, Públio Lentulus
meditava. Seu pensamento descia aos abismos tenebrosos do passado, onde
buscava rever, angustiadamente, as afeições carinhosas que o haviam
precedido nas sendas tristes da morte. Fazia mais de um mês que a
esposa havia demandado, igualmente, os mistérios do túmulo, em trágicas
circunstâncias.
Mergulhado nas trevas do seu exílio de amargores e profundas
saudades, o orgulhoso patrício serenava as inquietações dolorosas do
dia, a fim de melhor consultar os mistérios do ser, do sofrimento e do
destino… Em dado instante, quando mais fundas e melancólicas as penosas
reminiscências, notou através do véu de suas lágrimas, que a pequena
cruz de madeira como que emitia delicados fios de luz prateada, qual se
fora banhada de um luar misericordioso e brando.
Públio Lentulus, absorto nas vibrações pesadas e obscuras da carne,
não viu a nobre silhueta de sua mulher, que ali se encontrava junto do
venerável apóstolo da Samaria, regozijando-se no Senhor, ao verificar
as profundas e benéficas modificações espirituais da alma gêmea da sua
na peregrinação iterativa das encarnações terrenas. Tomada de alegria e
reconhecimento para com a Providência Divina, Lívia beijou-lhe a
fronte num transporte de indefinível ternura, enquanto Simeão erguia
aos céus uma prece de amor e agradecimento. O senador não lhes viu,
diretamente, a presença suave e luminosa, mas no íntimo dalma sentiu-se
tocado por uma força nova, ao mesmo tempo que o seu coração amargurado
se viu envolto na luz cariciosa de uma consolação inefável e até então
desconhecida.
Emmanuel
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