1 Desde o martírio de Estêvão, agravara-se em Jerusalém † o movimento de perseguição a todos os discípulos ou simpatizantes do “Caminho”. Como se fora tocado de verdadeira alucinação, ao substituir Gamaliel nas funções religiosas mais importantes da Cidade, Saulo de Tarso deixava-se fascinar por sugestões de fanatismo cruel.
Impiedosas devassas foram ordenadas a respeito de todas as famílias que
revelassem inclinação e simpatia pelas ideias do Messias Nazareno. A
igreja modesta onde a bondade de Pedro
prosseguia socorrendo os mais desgraçados, era rigorosamente guardada
por soldados, com ordem de impedir as prédicas que representavam o
brando consolo dos infelizes. Obsidiado pela ideia de resguardar o
património farisaico, o moço tarsense entregava-se aos maiores
desmandos e tiranias. Homens de bem foram expulsos da cidade, por meras
suspeitas.
2 Operários honestos e até
mães de família eram interpelados em escandalosos processos públicos,
que o perseguidor fazia questão de movimentar. Iniciou se um êxodo de
grandes proporções, como Jerusalém de ha muito não via. A cidade começou
a despovoar-se de trabalhadores. O “Caminho” havia seduzido para as
suas doces consolações a alma do povo, cansada na incompreensão e no
sacrifício. Livre das prestigiosas advertências de Gamaliel, que se
retirara para o deserto e sem a carinhosa assistência de Abigail, que
lhe facultava generosas inspirações, o futuro rabino parecia um louco
em cujo peito o coração estivesse ressequido. Debalde, mulheres
indefesas suplicavam-lhe piedade; inútil crianças misérrimas pedirem
complacência para os pais, abandonados como prisioneiros infelizes.
3 O moço de Tarso †
parecia dominado por uma indiferença criminosa. As rogativas mais
sinceras encontravam no seu espírito um rochedo áspero. Incapaz de
compreender as circunstâncias que lhe haviam modificado os planos e
esperanças da vida, imputava o insucesso dos seus sonhos de mocidade
àquele Cristo, que não conseguira entender. Odiá-lo-ia enquanto
vivesse. Não sendo possível encontrá-lo para uma vingança direta,
persegui-lo-ia na pessoa dos seus caudatários, através de todos os
caminhos. A seu ver, era ele, o carpinteiro anónimo, o causador dos
seus fracassos em relação ao amor de Abigail, agora envenenado no seu
coração impulsivo por sentimentos estranhos, que, dia-a-dia cavavam
profundos abismos entre sua figura inolvidável e as lembranças que lhe
eram mais carinhosas. Não mais voltara à casa de Zacarias e embora os
amigos da estrada de Joppe †
instassem suas notícias, mantinha se irredutível no círculo do seu
egoísmo sufocante. De vez em quando, sentia-se premido por uma saudade
singular. Experimentava imensa falta da ternura de Abigail, cuja
lembrança nunca mais se lhe havia apartado da alma enrijecida e
ansiosa. Mulher alguma poderia substituí-la no carinho do seu coração.
Entre angústias extremas, recordava a agonia de Estevam, sua invejável
paz de consciência, as palavras de amor e de perdão; em seguida, via a
noiva genuflexa, implorando-lhe amparo com um clarão de generosidade
nos olhos súplices. Jamais esqueceria aquela prece angustiada e comovedora,
ao abraçar o irmão nos derradeiros instantes de vida. Não obstante a
perseguição cruel que o transformara em mola-central de todas as
atividades contra a igreja humilde do “Caminho”, Saulo sentia que as
necessidades espirituais se multiplicavam no espírito sedento de
consolação.
4 Oito meses de lutas
incessantes passaram sobre a morte de Estevam, quando o moço tarsense
capitulando ante a saudade e o amor que lhe dominavam a alma, resolveu
rever a paisagem florida da estrada de Joppe, onde por certo
reconquistaria o afeto de Abigail, de maneira a reorganizarem todos os
projetos de um futuro ditoso.
Tomou o carro minúsculo com o coração opresso Quantas hesitações não
vencera para retornar à antiga situação, humilhando a vaidade de homem
convencionalista e inflexível! A luz crepuscular enchia a natureza de
reflexos de ouro fulgurante. Aquele céu muito azul, a verdura agreste,
as brisas cariciosas da tarde, eram os mesmos. Sentia-se reviver. Sonhos
e esperanças continuavam, também, intangíveis. E refletia na melhor
maneira de reaver a dedicação da mulher escolhida, sem humilhação para a
sua vaidade. Contar-lhe-ia sua desesperação, diria das suas insónias,
da continuidade do imenso amor que nenhuma circunstância conseguiria
destruir. Embora mantivesse firme o propósito de omitir toda e qualquer
alusão ao carpinteiro de Nazaré, falaria a Abigail do remorso por não
lhe haver estendido mãos amigas no instante em que todas as esperanças
de sua alma feminina se haviam abalado, ante o imprevisto da morte
dolorosa do irmão, em circunstâncias tão amargas. Esclareceria os
detalhes de seus sentimentos. Havia de referir-se á recordação
indelével da sua prece angustiosa e ardente, quando Estevam penetrava
os umbrais da morte. Atrai-la-ia ao coração que jamais a esquecera,
beijar-lhe-ia os cabelos, formularia novos projetos de amor e
felicidade.
5 Mergulhado em tais pensamentos, atingiu a porta de entrada, identificando as roseiras em flor.
O coração batia-lhe descompassado, quando Zacarias surgiu com grande
surpresa. Um abraço demorado assinalou o reencontro. Abigail foi objeto
de sua primeira interrogação. Com estranheza notou que Zacarias
entristeceu.
— Pensei que algum de teus amigos já te houvesse levado a desagradável
notícia — começou dizendo enquanto o jovem buscava ouvi-lo ansioso. —
Abigail há mais de quatro meses adoeceu dos pulmões e, para falar com
franqueza, não temos qualquer esperança.
Saulo fizera-se lívido.
— Logo depois que voltou precipitadamente de Jerusalém, esteve mais de
um mês entre a vida e a morte. Em vão nos esforçamos, eu e Ruth, para
restituir-lhe o viço e as cores da juventude. A pobrezinha entrou a
definhar e, em pouco tempo, acamou-se abatida. Solicitei tua presença,
com ansiedade, a fim de resolvermos o possível em seu benefício, mas não
apareceste. Parecia-me que um ambiente novo lhe proporcionaria o
restabelecimento da saúde, mas faltaram-me os recursos para uma
iniciativa mais ampla, tal como se impunha.
— Mas, Abigail fez alguma queixa a meu respeito? — Perguntou Saulo, aflito.
— De modo algum. Aliás, o regresso inesperado de Jerusalém, a
enfermidade súbita e teu injustificável afastamento desta casa, eram de
molde a causar-nos dúvidas e receios; mas logo se verificaram melhoras
positivas, após o período mais agudo da febre e ela nos tranquilizou a
respeito. Explicou a necessidade da tua ausência, disse estar ciente
dos teus muitos afazeres e encargos políticos; referiu-se com gratidão
ao acolhimento que lhe dispensaram teus parentes e, quando Ruth, para
confortá-la, qualifica de ingrato o teu procedimento, Abigail é sempre a
primeira a defender-te.
6 Saulo quis dizer alguma
cousa, enquanto Zacarias fazia uma pausa, mas nada lhe ocorreu à mente.
A emoção que lhe causava a nobreza espiritual da noiva amada,
paralisava-lhe as ideias.
— Apesar do seu esforço para tranquilizar-nos continuava o marido de
Ruth mantemos a impressão de que nossa filha adotiva se encontra
dominada por desgostos profundos, que procura ocultar. Enquanto podia
andar, visitava os pessegueiros, à mesma hora era que costumava fazê-lo
contigo. A princípio, minha mulher surpreendeu-a chorando, nas sombras
da noite; mas, em vão procurámos sondar a causa de seus íntimos
padecimentos. O único motivo que alegava era justamente o da
enfermidade, que começava a minar-lhe o organismo. Mais tarde estagiou
uma semana, por aqui, um pobre velho chamado Ananias.
Deu-se então um fato estranho: Abigail encontrou-o em casa dos nossos
rendeiros e, todas as tardes detinha-se a ouvi-lo horas a fio,
manifestando daí para cá muita fortaleza espiritual. Ao despedir-se, o
pobre mendigo deu-lhe como lembrança alguns pergaminhos contendo
ensinamentos do famoso carpinteiro de Nazaré…
7 — Do carpinteiro? — Atalhou Saulo evidentemente contrariado. — E depois?
Tornou-se dedicada leitora do chamado Evangelho dos galileus.
Consideramos a conveniência de afastá-la de semelhante novidade
espiritual, mas Ruth ponderou ser essa, agora, a sua única distração.
Com efeito, desde que começou a falar no discutido Jesus Nazareno,
observamos que Abigail se enchera de profundas consolações. E o fato é
que não mais vimo-la chorar, embora se lhe não apagasse do semblante
abatido a dolorosa expressão de amargura e melancolia. Sua conversação,
daí por diante, parece haver adquirido inspirações diferentes. A dor
transformou-se-lhe em confortadora expressão de alegria íntima. E fala a
teu respeito com um amor cada vez mais puro. Dá impressão de haver
descoberto nos misteriosos escaninhos da alma a energia de uma vida
nova.
Depois de um suspiro Zacarias terminava:
— E contudo, a mudança não alterou a marcha da enfermidade que a devora
devagarinho. Dia a dia vemo-la inclinar-se para o túmulo, como flor
que tomba do hastil ao sopro do vento forte.
8 Saulo experimentava
indisfarçável angústia. Penosa emoção revolvia-lhe a alma caprichosa e
sensível. Como definir-se? Esmagavam-lhe o espírito amargurosas
interrogações. Quem era, afinal, aquele Jesus que o topava em toda
parte? O interesse de Abigail pelo Evangelho perseguido revelava a
vitória do carpinteiro nazareno a contrastar os próprios sonhos da sua
mocidade.
— Mas, Zacarias — perguntou irritadiço o doutor de Tarso — por que não
impediste semelhante contato? Esses velhos feiticeiros percorrem as
estradas disseminando a confusão. Surpreende-me essa condescendência,
porquanto, nossa fidelidade à Lei não admite, ou pelo menos nunca deverá
admitir transigências.
O interpelado recebeu a recriminação com serenidade e acentuou:
— Antes de tudo, importa considerar que pedi em vão o socorro da tua
presença, para orientar-me. E além do mais, quem teria coragem de
sonegar o remédio ao doente amado? Desde que lhe vi a resignação
santificada, fiz o propósito de não me referir aos seus novos pontos de
vista em matéria de crença religiosa.
E, como Saulo estivesse engolfado em profundas cismas, sem saber o que responder, o bom homem rematou:
— Vem comigo, verás com os próprios olhos!…
9 O rapaz seguiu-lhe os
passos, cambaleando. As ideias baralhavam-se-lhe no cérebro dolorido.
Aquelas notícias inesperadas envenenavam-lhe o coração.
Reclinada no leito, assistida pela afeição maternal de Ruth, a moça de Corinto † estampava
no rosto um profundo abatimento. Muito magra, a epiderme adquirira a
cor do marfim, mas o olhar lúcido denotava absoluta calma espiritual.
Carinhosa serenidade estampava-se-lhe na fisionomia entristecida. De
vez em quando, renovava-se a dispneia com prolongada aflição,
voltando-se então para a janela aberta, como se dali esperasse remédio
ao seu cansaço, através das brisas frescas que chegavam do seio
generoso da natureza.
Ao vê-la, Saulo não dissimulou o seu espanto. A jovem, por sua vez,
recebendo a jubilosa surpresa, tornou-se de sincera e transbordante
alegria.
10 Saudações afetuosas
se trocaram entre ambos, enquanto os olhos traduziam a saudade
angustiosa com que haviam esperado aquele momento. O futuro rabino
acariciou-lhe as mãos mimosas, que pareciam agora modeladas em cera
translúcida. Falaram da esperança que os alentara, constante, antes do
reencontro. Notando que eles desejavam ficar sós para confidenciar mais
à vontade, Zacarias e Ruth retiraram-se discretamente.
— Abigail! Exclamou Saulo comovidíssimo, logo que se viram a sós —
abdiquei do meu orgulho e da minha vaidade de homem público para vir
até aqui perguntar se me perdoaste, se me não esqueceste!
— Esquecer-te? Perguntou ela de olhos húmidos. Por mais rude e longa
que seja a estação de sol ardente, a folha do deserto não poderá
esquecer a chuva benéfica que lhe deu vida. Não me fales, igualmente,
em perdão, pois acaso poderá alguém perdoar-se a si mesmo? E nós, Saulo,
pertencemo-nos um ao outro para a eternidade. Não me disseste, muitas
vezes, que eu era o coração do teu cérebro?
Ouvindo o timbre caricioso daquela voz amada, o jovem de Tarso
comovia-se nas entranhas do próprio ser arrebatado e ardente. Aquela
humildade, aquele tom de ternura, penetravam-lhe o coração,
conquistando-lhe o discernimento para o caminho reto.
Guardando as mãos pálidas da noiva entre as suas, exclamou com um lampejo de alegria nos olhos:
— Porque dizes que “eras o coração”, se ainda és e sê-lo-ás para
sempre? Deus abençoará nossas esperanças. Realizaremos nosso ideal.
Voltei para levar-te comigo. Teremos um lar, serás nele a rainha!…
11 Dominada por indefinível alegria, a noiva contemplava-o com lágrimas e murmurou:
— Desconfio, Saulo, que os lares da Terra não foram feitos para nós!…
Deus sabe quanto desejei, ardentemente, ser a mãe carinhosa de teus
filhos; como conservei o ideal acima de todas as circunstâncias, para
aformosear tua existência com o meu carinho! Desde menina, em Corinto,
vi mulheres que desbaratavam os tesouros do céu, simbolizados no amor
do esposo e dos filhinhos; e pensei que o Senhor me concederia o mesmo
patrimônio de esperanças divinas, pois aguardava as bênçãos do
santuário doméstico para glorifica-lo de todo coração. Para exalta-lo,
idealizei a vinda do homem amado, que me auxiliaria a erguer o altar da
prole; e assim que me chegaste, organizei vastos planos de uma vida
santa e venturosa, na qual pudéssemos honrar a Deus.
12 Saulo escutava comovido. Nunca lhe observara tamanha largueza de raciocínio e lucidez, naquele tom de ternura tranquila.
— Mas o Céu — prosseguiu resignada retirou-me as possibilidades de
semelhante ventura na Terra. Nos meus primeiros dias de solidão,
visitava os lugares ermos, como a procurar-te, requisitando o socorro
do teu afeto. Os pessegueiros de nossa predileção pareciam dizer que
nunca mais voltarias; a noite amiga aconselhava-me a esquecer; o luar
que me ensinaste a bem querer, agravava as minhas recordações e
amortecia as minhas esperanças. Da peregrinação de cada noite, voltava
com lágrimas nos olhos, filhas do desespero do coração. Embalde
procurava tua palavra confortadora. Sentia-me profundamente só. Para
lembrar e seguir tuas advertências, recordava que me chamaste a atenção,
a última vez que nos encontramos, para a amizade de Zacarias e de
Ruth. É verdade que não tenho outros amigos mais fiéis e generosos que
eles; entretanto, não lhes poderia ser mais pesada na vida, além do que
sou. Evitei, então, confiar-lhes minhas angústias. Nos primeiros meses
da tua ausência amarguei sem consolo a minha grande desdita. Foi
quando surgiu aqui um velhinho respeitável, chamado Ananias, que me deu
a conhecer as luzes sagradas da nova revelação. Conheci a história do
Cristo, o Filho de Deus Vivo; devorei o seu Evangelho de redenção,
edifiquei-me nos seus exemplos. Desde essa hora, compreendi melhor,
conhecendo a minha própria situação.
Súbito acesso de tosse cortou-lhe a narrativa.
13 As palavras da noiva
caiam-lhe no coração como gotas de fel. Nunca experimentara dor moral
tão aguda. Constatando a sinceridade natural, o carinho doce daquelas
confissões, sentia-se pungido de acerbos remorsos. Como pudera
abandonar, assim, a escolhida de sua alma, olvidando-lhe a fidelidade e
o amor? Onde encontrara tamanha dureza de espírito para esquecer
deveres tão sagrados? Agora, vinha encontrá-la exânime, desiludida de
realizar na Terra os sonhos da juventude. Além de tudo, o carpinteiro
odiado parecia tomar-lhe o lugar no coração da noiva adorada. Naquele
momento, não experimentava apenas o desejo de lhe arrasar a doutrina e
os adeptos, mas sentia ciúmes dele na alma caprichosa. De que poderes
podia dispor o nazareno obscuro e martirizado na cruz, para conquistar
os sentimentos mais puros da noiva carinhosa?
Abigail disse comovido abandona as ideias tristes que poderiam
envenenar os sonhos de nossa mocidade. Não te entregues a ilusões.
Renovemos nossas esperanças. Breve estarás restabelecida. Sei que me
perdoaste a morte de teu irmão e minha família te receberá em Tarso com
júbilos sinceros! Seremos felizes, muito felizes!…
14 Seus olhos pareciam
pairar numa região de sonhos deliciosos, procurando reavivar no coração
amado os seus projetos de felicidade terrena.
Ela, porém, misturando sorrisos e lágrimas acrescentava:
— Francamente, querido, eu também desejaria reviver!… Ser tua,
entretecer teus sonhos de juventude, inventar estrelas para o céu da
tua existência; tudo isso constitui meu ideal de mulher!… Ah! Se
pudesse, buscaria os teus parentes com amor, haveria de conquistá-los
para o meu coração, ao preço de um grande afeto; mas, pressinto que os
planos de Deus são diferentes no que concerne aos nossos destinos.
Jesus chamou-me para a sua família espiritual…
— Ai de mim! — Exclamou Saulo cortando-lhe a palavra em toda parte,
topo expressões do carpinteiro de Nazaré! Que flagelo! Não repitas
semelhante cousa. Deus não seria justo se te sequestrasse ao meu afeto.
Quem poderia então, como esse Cristo, interpor-se aos nossos votos?
15 Mas Abigail fixou-o com um gesto súplice e falou:
— Saulo, de que nos valeria a desesperação? Não será melhor
inclinarmo-nos com paciência aos sagrados desígnios? Não alimentemos
dúvidas prejudiciais. Este leito é de meditação e de morte. O sangue,
várias vezes, já me golfou prenunciando o fim. Mas nós cremos em Deus e
sabemos que esse fim é apenas corporal. Nossa alma não morrerá,
amar-nos-emos eternamente…
— Não concordo — respondia ele extremamente aflito essas presunções são
fruto de ensinamentos absurdos, quais os desse fanático nazareno que
morreu na cruz, entre a humilhação e a covardia. Nunca assim foste,
melancólica e desalentada; somente os sortilégios galileus podiam
convencer-te de tais absurdos funestos. Mas, procura raciocinar por ti
mesma! Que te deu o crucificado senão tristeza e desolação?
— Enganas-te, Saulo! Não me sinto desanimada, embora convicta da
impossibilidade de minha ventura terrena. Jesus não foi um mestre
vulgar de sortilégios, foi o Messias dispensador de consolação e vida.
Sua influência renovou-me as forças, saturou-me de bom ânimo e
verdadeira compreensão dos desígnios supremos. Seu Evangelho de perdão e
amor é o tesouro divino dos sofredores e deserdados do mundo.
16 O jovem não conseguia dissimular a irritação que lhe vagava na alma.
— Sempre o mesmo refrão — disse confuso — invariavelmente, a
afirmativa de ter vindo para os infelizes, para os doentes e
infortunados. Mas, as tribos de Israel não se compõem apenas de
criaturas dessa espécie. E os homens valorosos do povo escolhido? E as
famílias de tradições respeitáveis? Estariam fora da influência do
Salvador?
Tenho lido os ensinamentos de Jesus — respondeu a moça com firmeza —
suponho compreender as tuas objeções. O Cristo, cumprindo a sagrada
palavra dos profetas, revela-nos que a vida é um conjunto de nobres
preocupações da alma, a fim de que marchemos para Deus pelos caminhos
retos. Não podemos conceber o Criador como juiz ocioso e isolado, senão
como Pai desvelado no benefício de seus filhos. Os homens valorosos a
que te referes, os forros de enfermidades e sofrimentos, na posse das
bênçãos reais de Deus, deviam ser filhos laboriosos, preocupados com o
rendi mento da tarefa que foram chamados a cumprir, a prol da
felicidade de seus irmãos. Mas, no mundo, temos contra nossas
tendências superiores o inimigo que se instala em nosso próprio coração.
O egoísmo ataca a saúde, o ciúme prejudica o mandato divino, como a
ferrugem e a traça que inutilizam nossas vestes e instrumentos, quando
nos descuidamos. São poucos os que se recordam da proteção divina, nos
dias alegres da fartura, como raríssimos os que trabalham à revelia do
aguilhão. Isso demonstra que o Cristo é um roteiro para todos,
constituindo-se em consolo para os que choram e orientação para as almas
criteriosas chamadas por Deus a contribuir nas santas preocupações do
bem.
17 Saulo estava
impressionado com aquela clareza de raciocínio. Mas a conversação
exigira da enferma maior esforço e consequente fadiga. A respiração
tornara-se difícil e, não tardou que o sangue lhe borbotasse do peito
em prolongada hemoptise. Aquele sofrimento, adornado de ternura e
humildade, comovia e exasperava profundamente o noivo. Compreendeu que
seria impiedoso atacar, perante a noiva, aquele Jesus que lhe cumpria
perseguir até o fim. Não queria crer que a sua Abigail estivesse nas
vésperas da morte. Preferia encarar o futuro com otimismo.
Restabelecida, fá-la-ia voltar aos seus antigos pontos de vista. Não
toleraria a intromissão do Cristo no santuário doméstico. No esforço
introspectivo, entretanto, concluiu que precisava dar uma trégua aos
seus pensamentos antagônicos, para cogitar dos problemas essenciais da
sua própria tranquilidade. A jovem enferma, após a crise que durara
minutos longos e tristes, tinha os grandes olhos serenos e lúcidos.
Contemplando-a naquela doce atitude de suprema resignação, Saulo de
Tarso experimentou enternecedoras comoções íntimas. Seu temperamento
arrebatado entregava-se facilmente às impressões extremadas.
Aproximando-se mais da noiva amada, tinha os olhos húmidos. Desejou
acariciá-la como se o fizesse a uma criança.
— Abigail — murmurou ternamente — não falemos mais de ideias
religiosas. Perdoa-me! Recordemos nosso porvir de flores, esqueçamos
tudo para consolidar as melhores esperanças.
18 E as palavras lhe
borbulhavam ardentes de emoção. O carinho que evidenciavam era sintoma
do arrependimento e das aspirações nobres e sinceras que lhe
trabalhavam agora, no espírito angustiado. Entretanto, como se fora
presa de singular abatimento depois do esforço dispendido, a jovem de
Corinto estava lânguida receando prosseguir no colóquio, em virtude dos
acessos de tosse que a ameaçavam frequentemente. O noivo, preocupado,
compreendeu a situação e apertando-lhe as mãos transparentes, beijou-as
enternecido.
— Precisas repousar — disse com inflexão carinhosa — não te preocupes
por minha causa. Dar-te-ei de minhas forças próprias. Breve estarás
restabelecida. E depois de envolvê-la num olhar cheio de gratidão e
infinda ternura, rematava:
— Voltarei a ver-te todas as noites que possa afastar-me de
Jerusalém, e logo que puderes voltaremos a ver o luar, lá no jardim,
para que a natureza abençoe os nossos sonhos, sob as vistas de Deus.
— Sim, Saulo — disse pausadamente — Jesus nos concederá o melhor. De
qualquer modo, no entanto, estarás no meu coração, sempre, sempre…
19 O doutor da lei ia
despedir-se, mas refletiu que a noiva nada lhe dissera com referência
ao irmão. A generosidade daquele silêncio impressionava-o. Preferia ser
acusado, discutir o feito com as suas penosas circunstâncias, para que
também se justificasse. Mas, em vez de reprimendas encontrava
carícias, em vez de exprobrações uma tranquilidade generosa, que sabia
ocultar as profundas feridas que ele causara.
— Abigail — exclamou algo hesitante — antes de partir, quisera saber
francamente se me desculpaste pela morte de Estevam. Nunca mais pude
falar-te das contingências que me levaram a tão triste desfecho; no
entanto, estou convicto de que tua bondade olvidou minha falta.
Por que te recordas disso? — respondeu-lhe esforçando-se por manter a
voz firme e clara. — Minh’alma está agora tranquila. Jeziel está com o
Cristo e morreu legando-te um pensamento amistoso. Que poderia eu
reclamar de minha parte, se Deus tem sido tão misericordioso para
comigo? Ainda agora, estou agradecendo ao Pai justo, de todo o coração, a
dádiva da tua presença nesta casa. Há muito vinha pedindo ao Céu não
me deixasse morrer sem te rever e ouvir…
20 Saulo calculou a
extensão daquela generosidade espontânea e teve os olhos húmidos.
Despediu-se. A noite fresca estava repleta de sugestões para o seu
espírito. Nunca meditara nos insondáveis desígnios do Eterno, como
naquele momento em que recebera tão profundas lições de humildade e
amor, da mulher amada. Experimentava na alma opressa o embate de duas
forças antagônicas, que lutavam entre si para a posse do seu coração
generoso e impulsivo.
Não compreendia Deus senão como um senhor poderoso e inflexível. À
sua vontade soberana, dobrar-se-iam todas as preocupações humanas. Mas
começava a perquirir o motivo de suas dolorosas inquietudes. Por que
não encontrava, em parte alguma, a paz anelada ardentemente? E todavia,
aquela gente miserável do “Caminho” entregava-se às algemas do cárcere,
sorridente e tranquila. Homens enfermos e valetudinários, isentos de
qualquer esperança do mundo, suportavam lhe as perseguições com
louvores no coração. O próprio Estevam, cuja morte lhe servira de
exemplo inesquecível, abençoara-o pelos sofrimentos recebidos por amor
ao carpinteiro de Nazaré. Aquelas criaturas desamparadas gozavam de uma
tranquilidade que ele desconhecia. O quadro da noiva doente não lhe
saía dos olhos. Abigail era sensível e afetuosa, mas lembrava sua
ansiedade feminina, a intensidade de suas preocupações de mulher,
quando, eventualmente, não conseguia comparecer com pontualidade no
adorável recanto da estrada de Joppe. Aquele Jesus desconhecido
proporcionara-lhe forças ao coração. Se era inconteste que a enfermidade
lhe extinguia a vida aos poucos, também evidente era o
rejuvenescimento das suas energias espirituais. A noiva falara-lhe como
que tocada de novas inspirações; aqueles olhos pareciam contemplar
interiormente a paisagem de outros mundos.
21 Essas reflexões não
lhe deram ensejo a admiração da natureza. Reentrando em Jerusalém,
guardou a impressão de quem despertava de um sonho. À sua frente
desenhavam-se as linhas majestosas do grande santuário. O orgulho de
raça falava-lhe mais forte ao espírito. Era impossível conferir
superioridade aos homens do “Caminho”. Bastou a visão do Templo †
para que encontrasse em si mesmo os esclarecimentos que desejava. A
seu ver, a serenidade dos discípulos do Cristo provinha, naturalmente,
da ignorância que lhes era apanágio. Geralmente, os que se afeiçoavam
aos galileus eram apenas criaturas que o mundo desclassificara pela
decadência física, pela educação falha, pelo supremo abandono. O homem
de responsabilidade, por certo, não poderia encontrar a paz a preço tão
vil. Figurara-se-lhe haver resolvido o problema: Continuaria a luta.
Contava com o breve restabelecimento da noiva e logo que possível
desposaria Abigail e, com facilidade, dissuadi-la-ia dos fantasiosos
quão perigosos engodos daqueles ensinamentos condenados. Do âmbito do
seu lar feliz, prosseguiria na perseguição de quantos esquecessem a
Lei, trocando-a por outros princípios.
22 Esses raciocínios acalmaram, de certo modo, as inquietações.
Mas, no dia seguinte, manhã alta, um mensageiro de Zacarias
golpeava-lhe a alma com uma notícia grave: Abigail piorara, estava
agonizante!
Incontinenti, tomou o caminho de Joppe, ansioso de arrebatar a bem amada ao perigo iminente.
Ruth e o marido estavam desolados. Desde a madrugada, a enferma caíra
em penosa prostração. Os vômitos de sangue sucediam-se, ininterruptos.
Dir-se-ia que só esperara a visita do noivo para morrer. Saulo
escutou-os, lívido de cera. Mudo, dirigiu-se para o quarto, onde o ar
fresco penetrava embalsamado, trazendo a mensagem das flores do pomar e
do jardim, que pareciam enviar despedidas às mãos delicadas e
carinhosas que lhes haviam dado a vida.
23 Abigail recebeu-o com
um raio de infinita alegria nos olhos translúcidos. O tom de marfim do
semblante abatido, acentuara-se rapidamente. O peito arfava-lhe
precipite, o coração batia sem ritmo. Sua expressão geral evidenciava a
derradeira agonia. Saulo aproximou-se angustiado. Pela primeira vez na
vida, sentia-se trêmulo diante do irremediável. Aquele olhar, aquela
palidez de mármore, aquela aflição tocada de angústia, anunciavam-lhe o
desenlace. Depois de inquiri-la, quanto à razão daquele abatimento
inesperado, tomou-lhe as mãos flácidas, banhadas do suor frio dos
moribundos.
— Como foi isso, Abigail? — Dizia perturbado — ainda ontem, deixei-te
tão esperançado… Pedi sinceramente a Deus te curasse para mim!…
Extremamente sensibilizados, Zacarias e sua mulher afastaram-se.
24 Vendo que a noiva
tinha imensa dificuldade em expor as últimas ideias, Saulo ajoelhou-se a
seu lado, cobriu-lhe as mãos de beijos ardentes. A agonia dolorosa
parecia-lhe o sofrimento injustificável, que o Céu houvera enviado a um
anjo. Ele que trazia o espírito ressecado pela hermenêutica † das
leis humanas, sentiu que chorava intensamente pela primeira vez.
Lendo-lhe a sensibilidade através das lágrimas que lhe desciam
silenciosamente dos olhos, Abigail esboçou um gesto de carinho com
dificuldade infinita. Conhecia Saulo e comprovara-lhe a rigidez do
caráter. Aquele pranto revelava o calvário íntimo do bem-amado, mas
demonstrava, igualmente, o alvorecer de uma vida nova para o seu
espírito.
— Não chores, Saulo — murmurou dificilmente — a morte não é o fim de tudo…
— Quero-te comigo em toda a vida — replicou o rapaz desfeito em lágrimas.
— E contudo, é preciso morrer para vivermos verdadeiramente, —
acrescentava a moribunda, cortando as palavras com a respiração
opressa. Jesus nos ensinou que a semente caindo na terra fica só, mas
se morrer dá muitos frutos!… ( † )
Não te rebeles contra os desígnios supremos que me arrebatam do teu
convívio material! Se nos uníssemos pelo matrimônio talvez tivéssemos
muitas alegrias; teríamos um lar com os nossos filhos; mas, destruindo
nossas esperanças de uma felicidade passageira na Terra, Deus nos
multiplica os sonhos generosos… Enquanto esperarmos a união
indissolúvel, auxiliar-te-ei de onde estiver e te consagrarás ao
Eterno, em esforços sublimes e redentores…
25 Via-se que a agonizante movimentava recursos supremos para pronunciar as derradeiras palavras.
— Quem te deu semelhantes idéias? — Perguntou o jovem ralado de angústia.
— Esta noite, depois que partiste, senti que alguém se aproximava
enchendo o quarto de luz… Era Jeziel que vinha ver-me… Ao avistá-lo,
lembrei-me de Jesus no inefável mistério da sua ressurreição.
Anunciou-me que Deus santificava os nossos propósitos de ventura, mas
que seria levada ainda hoje à vida espiritual. Ensinou-me a quebrar o
egoísmo de minh’alma, encheu-me de bom ânimo e trouxe-me a grata nova
de que Jesus ama te muito, tem esperanças em ti!… Refleti, então, que
seria útil entregar-me jubilosa às mãos da morte, pois, quem sabe, se
ficasse no mundo não iria perturbar a missão que o Salvador te
destinou… Jeziel afirmou que nós te ajudaremos de um Plano mais alto!
Por que, então, deixarei de ser tua companheira?… Seguirei teus passos
no caminho, levar-te-ei onde se encontrem nossos irmãos do mundo, em
abandono, auxiliarei teus raciocínios a descobrir sempre a verdade!…
Ainda não aceitaste o Evangelho, mas Jesus é bom e terá algum meio de
nos unir os pensamentos na verdadeira compreensão!…
26 O esforço da
moribunda havia sido imenso. A voz extinguira-se-lhe na garganta. De
seus olhos, profundamente lúcidos, as lágrimas corriam abundantes.
— Abigail! Abigail! — gritava Saulo desesperado.
Mas, após longos minutos de angustiosa ansiedade, ela dizia num arranco supremo:
— Jeziel já veio… buscar-me…
Instintivamente, Saulo compreendeu que era chegado o momento fatal.
Em vão chamou pela moribunda, cujos olhos se empanavam; debalde lhe
beijou as mãos geladas, agora cobertas de um palor de neve translúcida.
Como louco, gritou por Zacarias e Ruth. Esta, soluçante, desfeita em
pranto, abraçou-se a Abigail que, desde a morte do filho, resumia todo o
seu tesouro maternal.
27 A agonizante fixou o
olhar, respectivamente em cada um, como a evidenciar amoroso
agradecimento. Depois… uma só lágrima silenciosa foi o seu último
adeus.
Do jardim próximo chegavam perfumes brandos; o céu crepuscular
tonalizava-se de nuvens aurifulgentes, enquanto os pássaros em
recolhida cruzavam os ares alegremente…
Pesada amargura abatera-se sobre a mansão da estrada de Joppe.
Alara-se ao céu a filha dileta, a noiva amada, a amiga carinhosa das
flores e dos passarinhos.
Saulo de Tarso ali se deixou ficar mudo, estarrecido, enquanto Ruth,
lavada em lágrimas, cobria de rosas a morta adorada que parecia dormir.
Emmanuel
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